O perigo de ser 'mindlessness' 🤔

Anita Malfatti, O retorno (1927)

Anita Malfatti, O retorno (1927)

Pode fazer o teste. Pergunte para seus amigos e colegas de trabalho como está a vida e conte qual o percentual de pessoas que estão tranquilas, sem estresse, sem correria e com tudo em dia.

Não há dúvidas, o nosso comportamento diário mudou muito nas últimas décadas. Antes dos celulares, poucas pessoas conseguiam entrar em contato com você quando queriam – na maioria das vezes, tinham que deixar um recado e esperar você retornar. Hoje, se alguém não responde imediatamente uma mensagem sua no Whatsapp, você logo imagina que deve ter acontecido alguma coisa séria.

É muito fácil, portanto, se sentir sobrecarregado com a pressão do dia-a-dia, não só no trabalho, mas na vida. Responder todos os e-mails, checar todos os posts das redes sociais, responder todas as mensagens enviadas, ler todas as newsletters que você assina, até mesmo comprar um simples par de meias na internet pode ser uma tarefa extremamente complicada.

Em algum momento, você deve se perguntar: com tudo isso, será que estou realmente vivendo minha vida?

Você pode ser uma destas pessoas que tem orgulho deste ritmo e se autoproclama ‘multitasking’, aquele/a que pode lidar com muitas coisas ao mesmo tempo. Verdade? Provavelmente não. A multitarefa é uma ilusão porque todos têm apenas um cérebro e este cérebro só pode processar uma coisa de cada vez. Esta ilusão é criada porque nós particionamos as tarefas em atividades menores e processamos uma de cada vez, de várias tarefas diferentes. Como resultado, não conseguimos mais desconectar deste modo de pensar.

Quando você tenta relaxar, se pega com frequência checando mentalmente sua lista de pendências e o que você deve fazer depois de ‘relaxar’, ou você se distrai o tempo todo e não consegue ficar sem fazer nada.

Mas, afinal, porque precisamos dessa pausa? Por que é importante achar momentos para simplesmente ‘não fazer nada? ’

Estudos científicos provaram que a falta desta pausa afeta nossa percepção e cria bloqueios mentais à criatividade.

Pior do que a falta da pausa é a falta da consciência da necessidade da pausa. A ilusão de que estamos trabalhando a capacidade plena é um grande perigo à produtividade.

Um estudo de Harvard mostrou que vendedores que repetem mecanicamente o mesmo discurso de vendas fazem significativamente menos vendas do que aqueles que são estimulados a falar alguma coisa diferente, mesmo que mínima. Neste mesmo estudo, os vendedores faziam declarações semanais sobre seu trabalho e reportavam cada vez menos prazer com o trabalho.

A expressão que está cada vez mais presente nas discussões sobre estresse no trabalho e que reflete esta sensação de estar no automático é ‘mindlessness’, que pode ser traduzida como ‘mente vazia’.

Veja um exemplo clássico de mindlessness. Quando você acorda de manhã, qual é sua rotina? Provavelmente alguma coisa parecida com isso: abre os olhos, se levanta, se alivia no banheiro, escova os dentes, penteia o cabelo, troca de roupa, toma o café e vai para o trabalho, certo?

Quanto desta rotina você realmente para e se concentra para fazer? Muito pouco, certo?

O processamento automático desta rotina, que você faz sem pensar, exibe um padrão que se repete em outras rotinas do seu dia-a-dia. Dirigir para o trabalho, tomar banho, reuniões de equipe, telejornal no fim do dia, e por aí vai. Assim como os vendedores da pesquisa de Harvard, você também embarca no caminho ‘mindlessness’ de não pensar no que faz.

Está certo, concordo que a rotina tem seu apelo. É um privilégio poder fazer as coisas rotineiras sem pensar, é confortável não ter que se preocupar com detalhes diários. No trabalho você já repetiu tantas vezes a mesma rotina que já entendeu qual é a forma mais eficiente de fazer as coisas, então pra que mudar? É como o carro sem motorista, atingir bons resultados sem precisar prestar atenção.

Porém, responda rapidamente: ‘A mãe de Maria tem quatro filhas, Lalá, Lelé, Lili e ?’ Tudo bem, não se sinta culpado se respondeu ‘Loló’ ou ‘Lulu’, pois é esta resposta que o pensamento automático e preguiçoso leva, se você prestar atenção verá que a resposta é Maria.

É muito mais fácil responder com padrões, assim você reserva sua capacidade mental para coisas mais importantes. O problema é que, acostumando o seu cérebro a ser preguiçoso, quando precisar dele para uma tarefa mais complexa, ele não vai responder como você espera, só as respostas padrão e fáceis vão surgir. Invariavelmente, não são as melhores respostas ou nem sequer são suficientes para resolver alguns problemas.

Se o comportamento ‘mindlessness’ é a nossa resposta para conseguir lidar com a correria e os excessos diários, como sair desta armadilha? Como criar essa pausa que quebra a rotina e chacoalha nossa mente para sair da letargia? Como ser mais ‘mindfulness’, o oposto disso tudo?

A mudança não é fácil, mas o começo é simples e acessível a todos. Deixe-me propor um exercício simples que, se praticado com frequência e estendido para outras tarefas da sua rotina, pode mudar sua vida. Pegue uma tarefa qualquer que você costuma fazer sem prestar atenção, como por exemplo, escovar os dentes.

Reserve o dobro do tempo que normalmente usa para esta tarefa simples e automática. Comece com a pasta de dente. Veja quanto coloca na escova, por onde aperta o tubo, sinta o dedo pressionando o tubo, perceba como aproxima a escova da pasta.

Agora observe a escova, veja cuidadosamente todos os detalhes, as cores, o formato, as condições das cerdas, a textura. Agora pense em que lugar da boca vai começar a escovação. Abra a boca e tente acompanhar cada movimento no espelho. Sinta as cerdas tocando os dentes e a gengiva. Sinta a massagem ativando a circulação das gengivas. Sinta a língua passeando pela boca, dando espaço para a escova trabalhar, preste atenção no ângulo que faz o seu braço e o movimento da mão em cada parte da boca. Tente escovar um dente de cada vez, esteja alerta para sentir que um dente terminou e você está pronto para começar o próximo dente.

Parece simples, mas é complicado, porque a sua impaciência vai te martelar a mente. Pensamentos vão tentar ocupar o espaço da sua concentração na atividade. Vai ser difícil conseguir não agilizar a escovação depois da primeira metade do processo. A racionalidade vai te cutucar o tempo todo falando pra você parar de fazer papel de idiota e terminar logo esta besteira. Acredite, mantenha-se firme. No começo você não vai entender nada, mas com o tempo você vai começar a prestar atenção em pequenas coisas deste simples processo que nunca tinha se dado conta antes.

Na medida em que você estende este comportamento para o seu banho, sua refeição, sua ginástica e outras rotinas, vai perceber que sua memória melhora, sua concentração melhora, sua criatividade aflora, seu bem estar geral aprimora.

Combata o mindlessness. Pense, quebre a rotina, tire seu cérebro da letargia e seu futuro, sua carreira e seu sucesso vão agradecer!

Por Marcos Hashimoto

Co-fundador da Polifonia, Professor de Empreendedorismo na Universidade de Indianapolis/EUA, Consultor e Especialista em Inovação Corporativa.

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